domingo, 25 de maio de 2008

Mar-de-Rosas


A idéia para abordar este tema surgiu daquele casal que atendi no meu último plantão, mencionado na postagem anterior. A mulher era a paciente, na verdade. Eles já me causaram uma boa impressão ao entrar na sala. Deram um "Boa Noite, dra! A coisa tá complicada hoje, né?" Muito sorridente, me passou a impressão de que nem precisava consultar. "Tava com uma ardência para fazer xixi desde ontem. Aí fiz sexo com o meu marido e a coisa desandou!". Nesse momento, os dois se olharam com um ar cúmplice (safadinho?). Foi muito engraçado. Foi aí que eu não resisti e perguntei: "Vocês são casados há quanto tempo?". "Há quinze anos!". Não me segurei e proferi a minha clássica pergunta (ainda escreverei um livro com as respostas): "Qual é o segredo?". Ela disse: "Nos damos bem por que somos muito amigos, antes de tudo." O maridão completou: "Casamento não é prisão, não. A gente respeita as nossas individualidades". Comentei, então: "Puxa, que legal! Isso é tão incomum atualmente! Mas vocês hão de convir que as pessoas de modo geral não fazem boas escolhas, né?". Os dois assentiram com a cabeça. Bem, essa história foi só o gancho. Ouço com uma certa freqüência: "Tenho medo de ficar sozinha(o)...". Eu tenho um receio bem mais plausível: o de fazer uma escolha ruim. Claro que, atualmente, as coisas são muito mais simples quando não dá certo. Antigamente, era tudo muito complicado, principalmente para as mulheres. Minhas pobres ancestrais ficavam facilmente estigmatizadas em função de seu status conjugal e comportamento sexual. Outro dia assisti "Uma Rua Chamada Pecado", que é um filme da década de 50. Fiquei com a estranha impressão que as coisas não mudaram tanto assim. Tinha o papel de uma moça que era bem "avançada" para a época, digamos assim. Era a irmã mais velha e solteira da mocinha (a esposa do personagem do Marlon Brando). Ela só se encontrava à noite com os rapazes, para que não percebessem a sua idade. Algumas pessoas (mulheres, principalmente) ainda comportam-se como se tivessem prazo de validade. Outro dia, fui tomar um expresso no Mc Café e peguei uma revista "Nova" para dar uma folheada. Sempre encontro boas idéias de postagem lá - contestando aquele monte de merda, claro. Li uma matéria com o seguinte título: "Tenho 30 anos e estou solteira. O que fazer?" E o pior é as loucas que se prestam a dar depoimento. As que são capa na matéria então, nem se fala. Se eu fosse homem, colocaria cartazes com a cara delas penduradas por todas as casas noturnas com um aviso de "NEURÓTICA - CUIDADO". Sarcasmo à parte, é triste que pessoas cedam a esse tipo de pressão sem a menor crítica. Acabam aceitando menos do que mereceriam por comodismo (covardia?). Permanecem inertes em relacionamentos insatisfatórios e até patológicos. Claro que nada é um mar-de-rosas na vida. Como em outras instâncias, nem sempre um relacionamento está no auge. Todavia, o todo tem que compensar. Sempre. Gosto de fazer um paralelo com a minha profissão. Quando eu era estudante, com freqüência ouvia que ao chegar em "x" ponto da graduação iria "entrar em crise" e querer jogar tudo para o alto. Outra pérola era: "Com o tempo te tornarás fria e não suscetível ao sofrimento alheio." Nada disso aconteceu até hoje. Pelo contrário - minha profissão sempre foi um dos meus alicerces mais fortes. Penso que se um dia escolher (bem empregado o termo) alguém para estar ao meu lado, será algo parecido com a visão que tenho do meu trabalho. A alegria e o bem-estar proporcionados devem superar as adversidades. Num reencontro da minha turma de faculdade ano passado, papeei com a esposa de um colega meu de quem eu sempre gostei muito. Até um certo ponto da faculdade, tinha uma forte desconfiança que ele era um moço "casto", digamos assim. Mas foi só ele ficar com a guria (uns 6 anos mais velha do que ele, na verdade) que gamou e não desgrudou mais. Sugeri a ela que lançasse uma versão do "Kama Sutra" contando os segredos de tê-lo fisgado tão rapidamente. Dei muita risada quando ela disse "Às vezes ele tá mal-humorado em casa e MANDO ele ir jogar futebol com os amigos...Volta feliz e disposto que é uma beleeeza!". Bah, nem precisa explicar mais nada, né? Penso que a insegurança é um problema sério para muitos. No meu antigo perfil no Orkut, escrevi que importante é gostar dos defeitos, por que admirar qualidades é extremamente fácil e agradável. O conceito de "defeitos" é subjetivo, entretanto, vou me arriscar a abordá-los mesmo assim. Um dia me perguntaram se eu optaria pelo o excesso ou a falta de ciúmes. O meio-termo é sempre preferível, mas se não tivesse alternativa, escolheria a ausência dele. Essa característica para mim é de difícil manejo, por que não precisa de substrato para manifestar-se. Um ciumento patológico alimenta sozinho o seu próprio "monstro". Já recebi queixas de falta de ciúmes. Obviamente, partiu de um ciumento...Desnecessariamente desgastante isso. Tenho um certo trauma com gente pão-dura, também. Tive um namorado em 2003 (que com certeza não é leitor do meu blog) que só falava em dinheiro. Uma vez saímos e eu comprei três águas ao longo do passeio, pois era auge do verão. Dá prá acreditar que a criatura tomou metade das três e não se coçou para pagar nenhuma vez??? O meu limite máximo para aturar este ser foi três meses. Fui paciente, até. Ser comedido com os gastos é essencial. Dar o passo conforme a perna, por assim dizer. Mas quando vira mesquinharia, não tem jeito não. É doença mesmo. E pode ter certeza que vai se manifestar das formas mais diversas no funcionamento da pessoa. Sempre fui de dividir a conta - é questão de ser justa (e coerente), porém, um agrado eventual é uma questão de gentileza. Gentilezas que podem (e devem) partir da mulher também. Me desagradam também alguns "ismos": machISMO, fanatISMO, puritanISMO, comodISMO, radicalISMO (este engloba alguns dos anteriores). No final das contas, essencial é ter paz. Compartilhá-la então, melhor ainda. O amor é um dos pilares mais fortes e, paradoxalmente, mais vulneráveis. Pequenos e freqüentes sismos podem fazê-lo desabar, tal qual o efeito de um grande terremoto. Obs: nossa, como eu estou poética hoje...rs.

2 comentários:

Delamar disse...

Lá pelos anos 60 e 70 a gente casava da mesma forma como comprava carro, isto é, sem experimentar.
Não existia o teste-drive para nenhum dos casos.
Então, o máximo que se podia fazer para conhecer a futura-esposa ou o futuro-carro era olhar bem, apalpar, acionar os comandos e tirar informações com que já conhecia.
Até deixavam a gente ouvir o barulho do motor, mas dar uma voltinha, nem pensar!
Acabava-se escolhendo pela aparência.
Depois da compra começavam então a aparecer os problemas.
Mas evitava-se "entregar" de cara para os amigos os pequenos defeitos ou inconvenientes que acabavam por estragar completamente o prazer da compra. Ou era uma marcha que arranhava para engatar, ou era um balanço esquisito da suspensão, o motor que "engasgava" nas acelerações, barulhos generalizados, defeitos nos encaixes das partes da lataria, etc. Ea gente ali, aguentando no osso, para não dar o braço a torcer que tinha feito uma escolha errada.
Até havia um certo conformismo, pois era voz corrente que trocar por outro não resolvia, pois só trocavam os problemas.
Então ficava assim: conversando com os amigos, ficava-se sabendo dos defeitos dos outros carros, alguns bens mais graves (fundir o motor, quebrar a caixa de câmbio ou coisa do gênero) que ocasionavam enormes prejuízos.
Aí então, chegava-se à conclusão que era muito caro arriscar uma troca porque poderia vir algo pior.
Hoje em dia, pode-se experimentar à vontade. E tem gente que experimenta pra valer, como é o caso de um australiano que já tinha percorrido 3200 quilômetros em um teste-drive, quando foi detido pela polícia por ter exagerado na dose.
Para experimentar um parceiro, creio que não seja preciso ir tão longe como o australiano, mas é indispensável dar umas voltinhas.
Com algumas manobras já dá para sentir se, pelo menos nos primeiros anos de uso, vamos ter problemas ou não.
É claro que os defeitos vão aparecer com o tempo, mas pelo menos os mais desagradáveis já serão do nosso conhecimento e só ficaremos com eles se quisermos.
Já fui longe demais com a minhas analogias. Por hoje deu!
bj.
Delamar

Beth disse...

Adorei as tuas analogias, pai...O negócio então é fazer um bom "test-drive"...
Vou lembrar bem disso...
Beijos e obrigada pelo comentário! É sempre bom ouvir pessoas mais experientes...